Aos quatro ventos
Hr. Kleidmann

ARGUMENTO

Hr. Kleidmann trata, no presente, de acontecimentos passados, daquilo que já se foi, do que não tem volta, da flor que inevitável se perdeu. É um olhar sobre o envelhecimento, sobre a passagem da vida, sobre as dificuldades de conciliação das coisas com o tempo. O desenrolar dos fatos se dá por meio de dois pontos emocionais distintos e umbilicalmente ligados. Kleidmann e Bené são dois velhos octogenários e que, aparentemente, não possuem qualquer relação mais profunda um com o outro, a não ser o fato de que convivem num mesmo espaço, o Hotel Shalom; ele como hóspede vitalício, ela como empregada do estabelecimento. Porém um fio secreto de ligação entre ambos vai sendo desvendado ao longo do filme. Bené tem por Kleidmann um amor não enunciado e menos ainda correspondido, Kleidmann, por sua vez, mostra-se avesso às pessoas de seu convívio, é seco, áspero, ensimesmado, do tipo que carrega uma mágoa muito grande consigo. Parte dessa mágoa tem corpo em seu passado distante quando, recém chegado de sua terra, teve com Bené um breve caso. Para ele algo como uma busca de alívio físico aos conflitos que lhe pungiam o espírito, para ela o romance de toda sua vida. Nazista, agente secreto do regime recém derrubado, Kleidmann não pôde mais viver em sua Berlim natal; é certo que como agente secreto poucos conheciam sua condição de membro ativo do regime, entretanto alguns membros desse mesmo serviço secreto, os que não se conformavam com a simples entrega de seus sonhos à destruição das forças aliadas, formaram um grupo de resistência chamado Widerstand oder Sterben (resistir ou morrer) que pretendia restabelecer a ordem do III Reich. Kleidmann, mesmo partilhando do sonho da Germânia prometida, não se fez membro desse grupo; parecia-lhe uma loucura que um regime outrora tão fortemente estabelecido, com um exército poderoso em atividade, uma cúpula composta por membros verdadeiramente carismáticos, uma ideologia irrigada por uma fé fortemente posta em uma legião de fanáticos seguidores, fosse agora restabelecido com apenas algumas dezenas de membros de seu antigo serviço secreto; parecia-lhe mesmo improvável, e se ele queria ver Germânia um dia edificada, era porque queria viver para vê-la e não morrer para não a ver. Por esse motivo, Kleidmann passou um ano se escondendo em porões e escombros de Berlim, enquanto tentava sua aposentadoria ou mesmo transferência, para fora da Alemanha derrubada, em uma filial do Banco alemão em que trabalhava oficialmente. Para justificar seu intento buscou um álibi médico e propôs uma doença a si cujo tratamento prescindia do calor tropical e da brisa do mar. Assim, após o laudo médico oficializado e a aceitação deste por parte do Banco, Kleidmann parte em 1946 para o litoral nordeste do Brasil, vindo aportar em Salvador na Bahia. Ali conhece Bené, a serviçal do Hotel Shalom, estabelecimento de propriedade de um judeu americano, em que pensa se hospedar somente por uns tempos, até que sua apreensão originada pelo medo da perseguição nazista de resistência, passe, e desse modo não se levantem suspeitas de sua alma anti-semita. No entanto esta apreensão nunca passou, vemos agora Kleidmann quando anda pela rua, voltando-se, vez ou outra, olhando para trás, para ver quem vem atrás de si (seria um membro do Widerstand oder Sterben?), e desse modo Kleidmann torna-se hóspede vitalício da casa judia. Um homem envolto em tamanhas aflições na vida, considerem-se elas nobres ou nem tanto, se mostrará fragilizado, estará exaurido pela fuga e pelo medo e se entregará a primeira coisa que lhe pareça confortável bálsamo, e assim age Kleidmann. Bené era uma menina graciosa e solícita, Kleidmann então se entrega a essa sedução, a esse imaginado conforto. Mas tão logo feita a coisa, se dá conta de que traiu seu ideal, sua pátria, seus pares e, principalmente, traiu a si mesmo e desde então não mais busca contato de nenhum tipo com Bené, aliás a vida toda lhe responde apenas aos “bons dias” e “boas noites” com que esta lhe saúda. Esse breve relacionamento com Bené acarreta-lhe por toda a vida o peso de uma condenação, efeito da mácula, mesmo que inopinada, ocasionada a seus princípios nazistas. Como pôde ele, um legítimo filho dos árias, ter estabelecido contatos sexuais com uma mulher de raça não pura, uma negra? Essa indagação lhe tem o peso da sentença de uma condenação inapelável. Bené, após o incidente do encontro sexual com Kleidmann dá à luz uma menina sem pai, que tem traços finos e europeizados na fisionomia. Esta filha agora tem um filho, este totalmente branco, dado que o pai é um Italiano que veio de férias por aqui e que, apaixonando-se, casou-se com a filha de Bené. Passado o tempo, agora, a negra Bené está velha, muito gorda, lenta, cansada, solitária por toda uma vida, mesmo que tenha tido o desfrute da presença próxima do objeto de seu amor, Kleidmann. Ele, também velho e cansado, tem as feições naturalmente rudes acentuadas por um mal-humor perene, resultado do enfado do desejo não alcançado, dessa vida em constante fuga, do vexame moral do passado que lhe pesa aos ombros. Por conta dessa “vida em porões”, Kleidmann tem um pesadelo recorrente no qual é condenado por um tribunal nazista à expulsão do grupo e à morte, pela alta cúpula do III Reich. Esse tribunal é composto por três salutares membros do comando nazista, são eles: Hermann Göring, Josef Goebbles e Josef Mengele. E é nesse ponto que chegamos ao momento inicial do filme. Kleidmann não desce de seu quarto, no primeiro andar do Hotel Shalom, para o café da manhã e nem para sua habitual caminhada matinal à orla. Bené após saber da incomum ausência do antigo hóspede pede à Cruzinha, a jovem empregada da recepção, que o chame pelo interfone, o que a menina diz, mentindo, já ter feito sem sucesso. Bené pede à moça que então suba até o quarto dele e bata a sua porta para despertá-lo. Está visivelmente nervosa pela ausência, em seu rosto pode-se ler o pensamento: “Meu deus! Terá morrido?”. A menina se nega a subir inventando estar ocupada e transforma o pedido de Bené em sugestão peremptória à velha: “se lhe interessa saber sobre o Seu Clêidima, ela mesma que suba”. Pouco antes da conversa entre Bené e Cruzinha aparece na recepção do hotel um jovem homem que pega o jornal e senta-se a uma poltrona lendo-o; é um pernambucano, professor de história que está se doutorando na matéria com um assunto sobre o fim da II guerra, a misteriosa resistência de um pequeno grupo nazista. Adiante será ele quem dará as informações sobre o assunto. Quando Bené sobe, ele pergunta à menina, buscando ensejo para uma conversa, “quem é Clêidima?”, ela responde e ele segue falando de sua tese, sempre dando mostras de querer conquistar a moça com sua superioridade intelectual. Bené sobe muito lentamente e com grande sacrifício as escadas que levam ao primeiro andar e ao quarto de Kleidmann, que nesse momento debate-se em sua cama vivendo o pesadelo do tribunal do III Reich. As primeiras batidas à porta do quarto, mais o chamado de Bené, não são suficientes para acordá-lo, mas podem ser ouvidas em meio às imagens do pesadelo que são apresentadas ao expectador. Pela terceira ou quarta vez ele desperta, levantando-se súbito e pondo-se sentado na cama, parece apavorado e não atina ao fato de que Bené o chama. Após novo chamado ele se dá conta e grita em revide “Kleidmann!”. Bené volta-se ao corredor e se retira, ele senta-se lentamente à beira da cama e respira ainda um pouco ofegante, tem seu costumeiro ar sombrio e feições de um condenado. Quando Bené retorna à recepção, o professor e Cruzinha já emendaram assunto, conversam sobre o trabalho dele, “Mas o senhor então é polícia, é?” pergunta a menina que não entende bem o que o professor diz. Este responde negativamente e elucida, incluindo na conversa Bené, que demonstra interesse pelo assunto Alemanha/guerra. Bené mostra-se surpresa ao conhecer o assunto da tese do professor, mas tenta não demonstrar. Um hóspede desce para a sala do café e interrompe o assunto, obrigando Bené a retirar-se da recepção. Pouco depois, desce também o senhor Kleidmann que arbitra à Cruzinha que não permita que Bené arrume seu quarto hoje. À saída dele pode-se ver Bené, recém chegada ao limiar da porta, de onde o espia num canto sem ser vista, tem a feição de dor de quem adora o objeto de seu amor sempre à distância. Kleidmann caminha à praia refletindo sobre sua vida enquanto Bené, às escondidas, vai até o quarto dele e toca seus objetos como a suprir o contato tátil que não pode ter com a pessoa Kleidmann. A certa altura Kleidmann senta-se num banco à orla e uma jovem turista alemã lhe pede uma informação qualquer, ele a reconhece como sua compatriota e trocam algumas palavras ensejados por isso; ele, nostálgico de sua pátria, quer conversar longamente com a moça, que parte ignorando a clemência de Kleidmann e o abandona imerso em seus conflitos. Já ao crepúsculo, Kleidmann volta ao hotel, reflete novamente, pesa algumas coisas e conclui que tem que acertar contas com Benedicta (assim ele a chama), chega ao hotel e pergunta a menina sobre a velha empregada, esta diz que a velha passou mal e que foi levada ao hospital. Kleidmann recolhe-se a seu quarto, traz a aparência de um derrotado. No dia seguinte novamente Kleidmann não desce para o café, nem para sua habitual caminhada. A história se repete, Cruzinha se nega chamá-lo, Bené o faz. Dessa vez Kleidmann não atende...

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